Jornada de três dias de mãe para levar filha a hospital na Somália

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Halima Abdullahi Ibrahim segura a filha de 3 anos, Asho Hassan Abdi, em abrigo improvisado nos arredores de Kismayo, após percorrer quase 90 km em busca de atendimento para desnutrição aguda. (Foto: Instagram)

Em meio a uma crise humanitária sem precedentes, a somali Halima Abdullahi Ibrahim carregou por três dias sua filha de 3 anos, Asho Hassan Abdi, desde a aldeia até o Hospital de Referência de Kismayo, quase 90 quilômetros distante. A menina chegara com o corpo inchado — edema, sintoma grave de desnutrição. No centro de estabilização nutricional, profissionais mediram suas pernas e pés antes de iniciar o tratamento emergencial.

O caso de Asho ilustra um cenário alarmante em todo o país. Segundo a Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC), cerca de 1,92 milhão de crianças entre 6 meses e 5 anos sofrerão ou já sofrem de desnutrição aguda até junho de 2027. Desse total, aproximadamente 433 mil devem enfrentar a forma mais severa, com risco elevado de morte sem intervenção.

A deterioração é impulsionada pela confluência de seca prolongada — desde 2022 sem chuvas suficientes para plantar ou criar gado —, conflitos armados contra o grupo Al Shabaab e sucessivos cortes no financiamento humanitário internacional. Como consequência, pelo menos 380 unidades de saúde fecharam ou operam com capacidade reduzida e mais de 200 centros de tratamento de desnutrição suspendem atividades por falta de recursos. Segundo Saviano Abreu, porta-voz do Unicef na Espanha, o ciclo de estiagens alternadas com chuvas intensas e inundações agrava ainda mais a vulnerabilidade rural.

Somente em agosto, o Hospital de Referência de Kismayo atendeu 152 crianças com desnutrição aguda grave, das quais quatro não resistiram, informou o ministro da Saúde de Jubaland, Ismail Garas, à Associated Press. A Organização das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) alerta que as chuvas previstas entre outubro e dezembro pelo fenômeno El Niño podem afetar 16 das 18 regiões, colocando até 5,4 milhões de pessoas em risco de fome e aumentando surtos de doenças transmitidas pela água.

O deslocamento interno é outro desafio crítico. Mais de 3,3 milhões de somalis vivem como deslocados dentro do país, forçados a fugir da seca, da violência ou de enchentes. No assentamento de Luglow, nos arredores de Kismayo, abrigos improvisados mostram a precariedade das condições de vida. Mães sentam em esteiras com os filhos enquanto equipes do Unicef distribuem suplementos nutricionais. Ali Adan Ali, comissário de Jubaland para refugiados e deslocados, afirma que muitas famílias não recebem ajuda desde 2023 devido à falta de financiamento.

A resposta internacional também enfrenta limitações. O Plano de Resposta Humanitária para a Somália, orçado em 852 milhões de dólares, recebeu apenas 31% dos recursos necessários, segundo a OCHA. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) fornece assistência limitada apesar do aumento da demanda. Diante desse cenário, organizações pedem maior resiliência e novos formatos de atuação. Para milhares de famílias como a de Halima, a distância até um hospital, a escassez de serviços e a redução de fundos podem ser a linha entre a sobrevida e a tragédia.