Vulnerabilidade reconhecida pode ter causado ciberataque a supermercados na França

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Prateleiras vazias em câmaras frias de supermercado após ataque hacker na França (Foto: Instagram)

Especialistas em cibersegurança afirmam que a vulnerabilidade explorada no ataque que atingiu centenas de supermercados franceses na segunda-feira (12) já era conhecida anteriormente. Enquanto autoridades investigam a autoria do incidente e dimensionam os prejuízos, Dominique Schelcher, presidente da Coopérative U, minimizou nesta terça (13) a extensão dos danos, garantindo que apenas uma minoria das lojas precisou descartar mercadorias. O dirigente ressaltou que o combate imediato ao aumento anômalo de temperatura evitou perdas mais expressivas em grande parte das unidades afetadas.

Na virada de domingo para segunda-feira, hackers assumiram o controle remoto de sistemas de controle de refrigeração fornecidos pela dinamarquesa Danfoss e presentes em redes como Intermarché, Netto, Carrefour, Monoprix, E.Leclerc e Coopérative U. Aproveitando falhas conhecidas nos softwares, os invasores prolongaram ciclos de degelo por várias horas, elevando a temperatura interna das câmaras frigoríficas a até 50 °C, segundo registros de monitoramento. Em determinados casos, os equipamentos chegaram a superar essa marca, provocando defeitos nos próprios aparelhos e demandando substituições emergenciais.

Relatórios das empresas afetadas indicam que cerca de 300 lojas das redes Intermarché e Netto, 80 unidades da Carrefour e aproximadamente 30 Monoprix registraram interferências nos sistemas de frio, junto a pontos de venda da Coopérative U e da E.Leclerc. Segundo Schelcher, aproximadamente 80 estabelecimentos da rede U sofreram invasões, mas a rápida atuação de gerentes, técnicos de refrigeração e equipes locais permitiu restabelecer o controle da temperatura e manter a cadeia de frio em funcionamento. Em muitos casos, o estoque foi protegido antes da necessidade de descarte em massa.

Até o momento, nenhum coletivo reivindicou a autoria do ataque. Em entrevista ao Sud Ouest, a especialista Marta Rybczynska explicou que não foi preciso dispor de recursos técnicos sofisticados para explorar a brecha — bastava ter acesso aos sistemas desprotegidos. O jornal Le Monde chama atenção para a crescente vulnerabilidade de equipamentos de automação industrial expostos sem atualizações de segurança, especialmente aqueles com funções críticas no armazenamento e na conservação de produtos alimentícios.

O comerciante Charles Dezon, proprietário de um Intermarché em Gradignan, no sudoeste da França, relatou ao Le Monde que o ataque, iniciado por volta das 23h de domingo, só ficou evidente na madrugada, quando corredores foram encontrados com vazamentos de água e o sistema automático de combate a incêndio foi disparado. Ele estimou perdas de cerca de € 21 000 (aproximadamente R$ 133 000) em carnes, laticínios e congelados, valor equivalente a grande parte do faturamento diário da loja.

Em declaração à rádio RTL, Dominique Schelcher afirmou que os prejuízos variam de algumas dezenas de milhares de euros em lojas de menor porte a até € 200 000 em hipermercados. Representantes do setor acreditam que as perdas totais possam chegar a vários milhões de euros. A Procuradoria de Paris abriu inquérito, contando com o apoio da Agência Nacional para a Segurança dos Sistemas de Informação (Anssi) para identificar os responsáveis. O comissário europeu para Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, classificou o episódio como “inaceitável” e reforçou a urgência de reforçar a proteção das infraestruturas essenciais ao abastecimento alimentar. Nesta terça-feira (13), as redes afetadas seguiam trabalhando na restauração dos sistemas, enquanto técnicos mantinham equipamentos desconectados da internet para evitar novas intrusões.