Violência contra moradores de rua no DF reacende debate sobre vulnerabilidade social

Posted by


Morador de rua em ponto sob viaduto do Distrito Federal cercado por lixo e detritos (Foto: Instagram)

Episódios recentes de violência contra pessoas em situação de rua no Distrito Federal reacenderam o debate sobre vulnerabilidade social e segurança pública. Entre o início de agosto e meados do mês, a quantidade de ocorrências com moradores de rua em locais movimentados da capital causa apreensão e exige tanto ações de proteção social quanto de policiamento reforçado.

++ Elize Matsunaga: Carro do crime agora tem novo dono e acumula várias dívidas

Nos primeiros quinze dias de agosto, foram registrados mais de dez episódios de agressão direcionados a esse público, com maior concentração de ocorrências no Plano Piloto e em Ceilândia. Esse cenário ressalta as fragilidades enfrentadas pelas pessoas em situação de rua e amplia a discussão sobre a combinação de políticas de assistência e estratégias para coibir a criminalidade. De acordo com o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (EPEDF), em janeiro de 2025 havia 3.521 pessoas vivendo nas ruas da capital.

++ Fiji enfrenta surto acelerado de HIV impulsionado pelo uso de metanfetamina

Em 4 de agosto, uma mulher foi atacada com um estilhaço de vidro em uma parada de ônibus do Setor Comercial Sul por um homem com 11 anotações criminais. Três dias depois, na madrugada de 7 de agosto, o zelador Wanderlei Souza Lima, de 53 anos, foi agredido após se envolver em uma discussão com um morador de rua na CLN 314 e segue internado na UTI do Hospital de Base devido a complicações renais e neurológicas. No dia 11, Bruno Batista de Jesus, de 30 anos, armado com um facão e uma faca, feriu um morador de rua e fez refém uma idosa de 95 anos, sendo morto em confronto com policiais militares. Em 12 de agosto, câmeras de segurança registraram o momento em que Celso Delfino Pinheiro, de 41 anos, desferiu um chute na cabeça de uma criança de 5 anos. Ainda nesse período, uma mulher em situação de rua foi assassinada na QNM 3, em Ceilândia, e houve um tiroteio envolvendo três pessoas vulneráveis em Águas Claras.

A assistente social e especialista em política social Erci Ribeiro avalia que a escalada de agressividade pode estar relacionada a instabilidades emocionais ou ao uso de substâncias, observando que “variações entre o uso e a abstinência podem desencadear impulsos agressivos ou reações depressivas”. Ribeiro alerta para o risco de generalizar essas ocorrências a toda a população em situação de rua. A antropóloga social Izis Morais critica a carência de estrutura adequada para a saúde mental em Brasília e classifica os planos distritais como meras listas de desejos, sem estratégia efetiva de implementação.

A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) afirma que as ações de policiamento se baseiam em relatórios de inteligência que identificam horários e locais com maior incidência de crimes. Segundo a pasta, uma plataforma integra câmeras públicas e privadas para otimizar o monitoramento e agilizar as respostas a incidentes. Além disso, a secretaria destaca iniciativas de atendimento humanizado e ampliação do acesso a serviços públicos nas áreas com maior concentração de moradores de rua. Até a publicação desta matéria, as secretarias de Desenvolvimento Social e de Justiça e Cidadania não haviam se pronunciado sobre o assunto.

Para Morais, a Política Distrital para a População em Situação de Rua precisa definir metas claras, prazos de execução e orçamento próprio. Ela argumenta que apenas ampliar abrigo temporário não resolve o ciclo de exclusão. “É urgente a criação de centros de atendimento especializado em saúde mental e programas de inserção social com acompanhamento continuado”, afirma a antropóloga.