
Gabriel Feltran durante debate na Assembleia Nacional da França sobre eleições brasileiras (Foto: Instagram)
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, sobre Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno marcado para 25 de outubro pode acelerar mudanças radicais no regime político brasileiro. O sociólogo Gabriel Feltran, especialista em violência urbana e crime organizado, alerta que setores da extrema direita não se limitam ao autoritarismo, mas miram num projeto totalitário.
Feltran concedeu entrevista após participar de um debate na Assembleia Nacional francesa sobre o resultado do primeiro turno das eleições brasileiras. O evento foi organizado pelas deputadas Céline Hervieu, presidente do grupo de amizade França-Brasil, Dominique Voynet, e pela associação Autres Brésils. Atualmente diretor de pesquisa do CNRS e pesquisador da Sciences Po, ele tem vasta produção sobre periferias, facções criminosas e violência política no Brasil.
Segundo o sociólogo, o discurso bolsonarista invoca constantemente a democracia, mas a reduz ao exercício da maioria, ignorando direitos fundamentais das minorias. “Se há uma maioria que votou por eles, essa maioria tem o direito de fazer o que quiser. Quem é minoria que se exploda”, resume Feltran. Para ele, essa concepção quebra o pacto democrático consagrado pela Constituição de 1988, que garante espaços de expressão a todos os segmentos sociais.
Outra face desse projeto é a construção de um “inimigo comum”. Na narrativa da extrema direita, a restauração da ordem depende da exclusão de grupos apresentados como responsáveis pelos males do país. “Nós estamos na mão do crime, mas vamos redemocratizar o Brasil, entregando o país para os cidadãos de bem, eliminando aqueles que, na visão desses setores, são a causa de todos os nossos problemas”, explica o pesquisador.
Feltran destaca ainda a legitimação da violência bruta como instrumento político. Agentes de repressão, milicianos e justiceiros passam a ser vistos como modelos a seguir para “limpar a sociedade”. Por isso, a ameaça vai além do autoritarismo e atinge dimensões totalitárias, já que requer a eliminação de parcelas da população para viabilizar o projeto de poder.
Essa dinâmica abre caminho para uma exclusão política e social mais ampla. Qualquer oposição é rotulada de traição, lesa-pátria e tratada como crime. A ciência também fica sob suspeita, caso contradiga a “religião” da maioria. O pensamento minoritário, conclui Feltran, tende a ser esmagado. Para sintetizar o perigo, ele recorre a uma tirinha de Mafalda: quando se eliminar todos os bandidos, sobrarão apenas os assassinos.






