Palanque esvaziado e governador mais atuante: como vitória de Tarcísio em SP afeta a corrida entre Flávio e Lula

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Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro em ato político em São Paulo após a vitória no primeiro turno (Foto: Instagram)

A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo no primeiro turno das eleições de 2026 tem implicações estratégicas para a disputa presidencial. Ao conquistar 62,65% dos votos válidos e liderar em 639 dos 645 municípios, o governador elimina um segundo turno estadual, o que enfraquece a base de campanha tanto de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto de Flávio Bolsonaro (PL). Por outro lado, a vitória antecipada libera Tarcísio para concentrar seus esforços no apoio ao candidato bolsonarista.

Mariana Chaise, doutora em Ciência Política pela USP, explica que, com a confirmação de um segundo turno estadual, os presidenciáveis contam com uma “máquina de campanha” que permanece engajada. "Sem o segundo turno e com as bancadas do Legislativo já definidas, os deputados eleitos e derrotados, prefeitos e lideranças perdem o incentivo de associar-se ao presidenciável", analisa. A ausência dessa estrutura tende a reduzir a capilaridade das campanhas de Lula e Flávio no maior colégio eleitoral do país.

Essa dinâmica afeta diretamente a campanha de Lula, que deixará de ter Fernando Haddad como vitrine em São Paulo — Haddad alcançou 36,42% dos votos, vencendo apenas seis cidades. A derrota precoce do petista também retira do campo de Flávio Bolsonaro o impulso de uma mobilização casada com a reeleição de Tarcísio. Ainda assim, o efeito líquido dependerá da capacidade de reestruturar as equipes regionais para o segundo turno presidencial.

Para Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, a situação política de Tarcísio muda radicalmente após a vitória: "Ele não precisa mais pedir voto para si e ganha liberdade para dedicar maior tempo à eleição presidencial, especialmente à de Flávio". O especialista destaca o papel de Tarcísio como elo entre o eleitorado bolsonarista e setores de centro-direita que resistem ao sobrenome Bolsonaro, mas rejeitam o PT.

Fabio Andrade, cientista político e professor da ESPM, pondera que Tarcísio não “embarcará automaticamente” na campanha de Flávio, mas participará conforme for demandado, sobretudo na produção e divulgação de conteúdo para redes. De maneira semelhante, Mariana Chaise lembra que Haddad também poderá atuar em favor de Lula, num paralelo ao que ocorreu em 2014, quando a reeleição de Alckmin no primeiro turno impulsionou Aécio Neves no segundo.

No caso de Lula, Fabio considera que a inexistência de segundo turno estadual pode prejudicar a estratégia lulista, pois a disputa estadual costuma reduzir a abstenção, elemento relevante para o petismo. Ainda assim, Luciano ressalta que a transferência de votos entre disputas estaduais e presidenciais não é automática: "Eleitores podem escolher Tarcísio para governador e, ao mesmo tempo, votar em Lula para presidente", observa.

Por fim, Mariana enfatiza que o segundo turno presidencial é uma disputa nacionalizada, com preferências consolidadas. "Em São Paulo, o objetivo de Lula não é necessariamente vencer, mas diminuir a margem de derrota — como fez em 2022, quando perdeu por cerca de dez pontos, mas garantiu a vitória no pleito nacional", conclui. Assim, apesar dos desafios, a vitória de Tarcísio não determina isoladamente o resultado final na maior votação do país.