Fernanda Paccini Alves Godoi, de 36 anos, tinha 23 e ainda cursava o último ano de medicina quando conheceu Maria Vitória, a Mavi, durante um estágio de pediatria em um hospital de São Paulo. A bebê havia sido abandonada pela família biológica e vivia na unidade desde os primeiros meses de vida, situação que levou a estudante a iniciar o processo de adoção poucos dias depois do encontro.
Mavi poderia ter deixado o hospital aos 5 meses, mas não tinha para onde ir. A menina permaneceu na unidade até os 11 meses, quando Fernanda a conheceu, em fevereiro de 2013.
O primeiro contato aconteceu durante uma manhã de discussão de casos clínicos. Enquanto os estudantes estavam reunidos em roda, Fernanda percebeu a bebê sentada em um carrinho próximo ao grupo e sorrindo para as pessoas. “A Mavi chegou na minha vida de um jeito muito inesperado. Eu estava no último ano da faculdade de medicina, no estágio de pediatria, aos 23 anos, quando a conheci no hospital. Ela tinha 11 meses e, de alguma forma, quando eu a vi, eu soube que queria cuidar dela”, afirmou.
A estudante contou que a presença da menina fez com que ela parasse para observá-la em meio à movimentação do hospital. “Todo o barulho do hospital desapareceu, como se alguém tivesse baixado todo o volume. Fiquei imóvel e, junto do silêncio, veio uma sensação tão clara que quase me assustou”, relatou.
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Depois de conhecer Mavi, Fernanda voltou para casa naquele fim de semana e procurou a mãe. Contou que havia conhecido uma bebê, que estava “apaixonada” por ela, falou sobre o sorriso da menina e explicou que Mavi morava no hospital. Também disse que queria ajudá-la, embora ainda não soubesse de que maneira.
A mãe de Fernanda perguntou se a bebê tinha roupas. Ao descobrir que eram poucas, sugeriu que a família organizasse uma campanha para arrecadar doações. “Foi simples, foi rápido e foi ali que percebi que aquela história não era só minha, era nossa”, disse Fernanda.
Dias depois, os familiares retornaram ao hospital com os itens arrecadados. Como os pais de Fernanda não podiam entrar na instituição pelas regras do local, ela conseguiu dois jalecos emprestados para que eles tivessem acesso à enfermaria. Luiz Eduardo, namorado de Fernanda na época e atualmente seu marido, também acompanhou a visita. “Quando meus pais se aproximaram e a pegaram no colo, aconteceu algo que nenhuma palavra explica completamente. Foi um encaixe perfeito, natural, suave, como se aquele gesto já estivesse escrito antes de acontecer”, relatou.
Mesmo com limitações físicas e neurológicas, Mavi mandou um beijo para a avó durante o encontro. “Ali, naquele quarto de enfermaria, minha família inteira entendeu o que estava acontecendo. Nós não estávamos ajudando uma criança, nós estávamos encontrando uma filha”, afirmou.
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Mavi nasceu com mielomeningocele, síndrome de Arnold Chiari tipo 2 e hidrocefalia. Ela também passou por cirurgias importantes ainda no início da vida. Essas condições não fizeram Fernanda desistir da ideia de levá-la para casa.
O encontro ocorreu em fevereiro de 2013 e, menos de dois meses depois, em abril, Mavi chegou à casa da família, aos 1 ano e 1 mês. O processo de adoção foi iniciado poucos dias depois de Fernanda conhecer a menina. “A decisão de adotá-la não foi racional nem planejada, foi imediata. Foram poucos dias entre conhecê-la e dar entrada no processo de adoção”, relembrou.
Depois de concluir a faculdade, Fernanda voltou a morar com os pais e passou a dividir com eles os cuidados diários de Mavi. Os avós participaram de grande parte da rotina enquanto ela seguia a formação profissional, incluindo pós-graduação, residência médica e fellowship.
Apesar de sempre ter exercido os cuidados de mãe, Fernanda afirma que demorou a ocupar esse lugar de maneira plena. “Eu sempre fui mãe dela, mas, por muito tempo, me escondi no papel de irmã, talvez por medo, talvez por não me sentir pronta”, revelou à CRESCER.
A percepção mudou quando Mavi tinha 5 anos, durante uma sessão de terapia ocupacional. Fernanda percebeu que a menina já a reconhecia como mãe e que não ocupar esse papel por inteiro a incomodava. Foi naquele momento que, segundo ela, passou a se reconhecer plenamente como mãe.
Ao longo da trajetória das duas, a relação também mudou a maneira como a família passou a enxergar a vida. “A Mavi transformou a nossa forma de ver o mundo. Nos ensinou sobre presença, sobre olhar e sobre ir além do que é considerado ‘normal’”, declarou à CRESCER.














