Governo Bolsonaro buscou vender respiradores ao exterior durante a pandemia, diz site

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Em junho de 2020, o Itamaraty acionou dez embaixadas para sondar possíveis compradores estrangeiros de respiradores, enquanto o Brasil enfrentava milhares de mortes por Covid-19. (Foto: Instagram)

O governo de Jair Bolsonaro (PL) tentou vender respiradores fabricados no Brasil para outros países durante a pandemia de Covid-19, em um dos períodos mais críticos da crise sanitária, quando cerca de mil pessoas morriam diariamente. A informação foi divulgada nesta quarta-feira, 4, pela organização sem fins lucrativos Fiquem Sabendo, especializada no acesso a informações públicas.

Segundo a organização, em 17 de junho de 2020, o Itamaraty, então chefiado por Ernesto Araújo, acionou dez embaixadas para identificar possíveis compradores dos equipamentos. A proposta era preparar uma ação de promoção comercial e apurar quantos respiradores poderiam ser vendidos.

A iniciativa aparece em um conjunto de telegramas diplomáticos obtido por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Entre os documentos está uma circular reservada que ordenava a busca por compradores e classificava o assunto como “urgentíssimo”. O Itamaraty justificou a medida pela “possibilidade de que, em breve, a produção brasileira de ventiladores pulmonares supere a demanda interna”, mas o telegrama não apresentava dados ou projeções que comprovassem a existência de excedente.

As embaixadas deveriam consultar governos e hospitais sobre a demanda “presente e futura” por respiradores brasileiros, incluindo o número de aparelhos desejados e as especificações técnicas exigidas em cada país. As respostas serviriam de base para avaliar uma possível ação comercial. A ordem foi enviada às representações brasileiras na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Naquele 17 de junho, o Brasil registrou 1.269 mortes por Covid-19 e acumulava mais de 46 mil óbitos e 955 mil infectados. Em seis estados, a ocupação de leitos de UTI passava de 80%. No mês seguinte à tentativa de comércio, o país contabilizou 32 mil mortes pela doença, superando os índices dos Estados Unidos naquele período.

A alegação de que poderia haver aparelhos sobrando contrastava com os atrasos na fabricação e na entrega de equipamentos no Brasil. Até o fim de maio de 2020, haviam sido entregues 1.612 dos 14,1 mil respiradores previstos em contratos federais. Estados afirmavam ter aberto leitos hospitalares contando com aparelhos prometidos pelo Ministério da Saúde que não chegaram.

A busca por compradores no exterior também contrariava alertas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre a falta de respiradores em Manaus (AM). A agência previu que o sistema de saúde entraria em colapso; naquele período, o Amazonas estava entre os estados com maior número proporcional de mortes por Covid-19. Quando o Itamaraty emitiu a ordem “urgentíssima”, o governo também havia orientado que não seria responsável por fornecer respiradores aos estados.

Além disso, uma lei sancionada por Jair Bolsonaro em abril proibia a exportação de ventiladores pulmonares e outros produtos médicos durante a emergência sanitária. A saída dos equipamentos do país só poderia ser autorizada mediante justificativa e desde que não comprometesse o atendimento à população brasileira.