Dia mais quente na história dos oceanos é registrado por conta do El Niño

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Nuvens de fumaça pairam sobre a costa em meio a um cenário de calor extremo dos oceanos. (Foto: Instagram)

No último sábado (22), as águas oceânicas globais atingiram a temperatura média mais alta já registrada, um fenômeno que deve se intensificar nos próximos meses e afetar a vida marinha e terrestre. O Serviço Climático Europeu Copernicus anunciou na segunda-feira (24) que o calor dos oceanos foi impulsionado por um El Niño natural de grande magnitude e pelo aquecimento global decorrente da ação humana. Na sexta-feira (21), a média das temperaturas marítimas alcançou 21,1 °C, superando o recorde diário anterior de março de 2024, segundo Samantha Burgess, líder estratégica de clima do Copernicus. Ela alerta que esse dado reforça a pressão extrema a que o sistema climático e o próprio oceano estão submetidos.

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Para a oceanógrafa Jane Lubchenco, ex-chefe da NOAA, a marca é “muito preocupante”. Ela destaca que um oceano tão aquecido desestrutura os padrões climáticos e coloca em risco a segurança alimentar, o bem-estar econômico e a biodiversidade marinha. “Um mar mais quente não é nosso aliado”, afirmou Lubchenco, enfatizando que as mudanças no termostato planetário podem gerar consequências graves para a humanidade e para os ecossistemas.

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Burgess explica que o aquecimento dos oceanos provoca maior acidez e redução do oxigênio dissolvido, prejudicando a produção de alimentos dependentes do mar. Além disso, ele modifica correntes e padrões climáticos, intensificando tempestades e ondas de calor. Na Europa, por exemplo, o verão foi marcado por noites mais quentes, pois a tradicional brisa marítima, que ameniza as temperaturas noturnas, perde força quando o oceano está em níveis tão elevados de calor.

A temperatura dos oceanos geralmente atinge seu ápice entre março e abril, ao final do verão no Hemisfério Sul, mas neste ano o recorde ocorreu em agosto. Segundo Burgess, o aquecimento deve prosseguir até o auge do El Niño — um fenômeno que aquece temporariamente partes do Pacífico — previsto entre novembro e janeiro. O El Niño já exibe intensidade comparável aos maiores eventos anteriores e se soma ao aquecimento de longo prazo, originado pela queima de combustíveis fósseis, que eleva em média 0,8 °C as águas oceânicas.

O professor Boris Worm, da Universidade Dalhousie, no Canadá, revela preocupação com a antecipação e a anormalidade do aquecimento, indicando que o pico do fenômeno poderá ser inédito. “O oceano não deveria se comportar dessa forma. Simplesmente não existe mais um ‘normal’”, afirmou. O ecologista marinho John Bruno, da Universidade da Carolina do Norte, lembra que o calor excessivo já devastou corais e espécies de peixes. Ele estima que apenas um quinto dos corais sensíveis ao calor permanece vivo em comparação à década de 1990, embora algumas espécies estejam demonstrando certo grau de adaptação.

Bruno e Worm alertam para o risco de colapso na pesca e na segurança alimentar. Eles citam a anchova peruana, a maior pescaria mundial, cuja reprodução e sobrevivência caem drasticamente durante eventos de El Niño, afetando toda a cadeia alimentar, desde peixes maiores até aves marinhas e comunidades humanas costeiras. “É como retirar o tapete debaixo de uma economia: tudo desmorona”, comparou Worm, destacando que, embora algumas espécies possam até prosperar, o conjunto do sistema sofre danos profundos.

O aumento de águas-vivas, favorecidas por águas mais quentes, também tem sido observado em várias regiões, incluindo a costa leste dos Estados Unidos, conforme Burgess e Worm. Para o ex-chefe da NOAA Rick Spinrad, o oceano funciona como o termostato do planeta e essas temperaturas recordes da superfície do mar prenunciam desafios ainda maiores para a segurança, a prosperidade e o bem-estar humanos.