Daniel Kish é cego desde bebê, mas desenvolveu uma maneira própria de perceber o ambiente ao seu redor por meio de sons. O americano utiliza estalos da língua para produzir ondas sonoras e, a partir dos ecos que retornam, identificar objetos, distâncias e estruturas enquanto realiza atividades como trilhas e mountain bike.
A técnica começou a ser desenvolvida por Kish ainda na infância. Ele estala a língua contra o céu da boca várias vezes por segundo e interpreta o som refletido pelos elementos próximos. Carros, árvores, portas e postes podem ser identificados dessa maneira.
O método é conhecido como ecolocalização humana e tem funcionamento semelhante ao princípio utilizado pelos morcegos. “É o mesmo processo usado por morcegos. Você envia um som ou uma chamada, e ondas sonoras são ondas físicas, elas rebatem em superfícies físicas”, afirma Kish.
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A partir dos ecos, Kish consegue obter informações sobre características dos objetos que estão à sua frente: “Assim, se uma pessoa está estalando a língua e está ouvindo as superfícies ao seu redor, ela é capaz de ter um senso instantâneo da posição destas superfícies”.
Segundo ele, a técnica permite perceber diferenças entre estruturas: “Não é que eu seja capaz de diferenciar o metal da madeira, mas posso diferenciar a composição dessas estruturas. Por exemplo, uma cerca de madeira costuma ter uma estrutura mais espessa do que uma estrutura de metal e, quando a área é muito silenciosa, a madeira tende a refletir um som mais vívido do que o som do metal”.
A ecolocalização também é utilizada por Kish para perceber aspectos do espaço além de sua função prática de orientação. “É possível obter um senso de beleza ou de aridez ou do que quer que seja a partir do som, bem como do eco. Mesmo arquitetura tem alguma distinção. É possível estalar a língua em direção a um prédio, por exemplo, e ouvir de volta se o prédio é ornamentado ou se não conta com ornamentos”, disse.
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A capacidade de pessoas cegas utilizarem os ecos para perceber o ambiente também foi analisada por pesquisadores. Em 2011, cientistas do Canadá escanearam os cérebros de dois voluntários cegos que praticavam ecolocalização e de duas pessoas com visão que não utilizavam a técnica.
Durante o experimento, os participantes ouviram gravações com ecos e outras nas quais os ecos haviam sido retirados. Os exames identificaram atividade no sulco calcarino, região do cérebro associada à visão, nos participantes cegos quando ouviam as gravações que continham os ecos.
O córtex auditivo não apresentou atividade específica nesses participantes. Lore Thaler, um dos cientistas envolvidos no estudo, explicou: “Nós não sabemos exatamente o que eles estão vendo, mas eles seguramente estão usando a parte do cérebro que as pessoas com visão usam para enxergar”.
Kish também passou a ensinar a técnica a outras pessoas por meio do método que chama de FlashSonar. Segundo as informações fornecidas, mais de 500 estudantes em pelo menos 25 países já participaram do curso oferecido pela organização sem fins lucrativos World Access for the Blind.














