
Pesquisadores na Antártica coletam bactérias de lagoas geladas em busca de fotoliases capazes de reparar o DNA (Foto: Instagram)
Pesquisadores têm investigado microrganismos da Antártica para criar soluções capazes de reparar os danos provocados pela radiação ultravioleta e, quem sabe, contribuir futuramente para o rejuvenescimento da pele. Esses organismos sobreviveram por milênios em condições extremas devido à ação de enzimas chamadas fotoliases, capazes de consertar diretamente lesões no DNA causadas pelos raios UV.
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Em 2014, o cientista uruguaio Juan José Marizcurrena embarcou em uma longa expedição de Montevidéu até as geleiras antárticas, percorrendo quase 6 mil quilômetros, sob a supervisão da bioquímica Susana Castro-Sowinski, da Universidad de la República (Udelar). A equipe tinha como missão coletar bactérias em lagoas e geleiras para entender mecanismos de adaptação a temperaturas abaixo de zero e à intensa radiação solar.
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Segundo Marizcurrena, o continente gelado funciona como laboratório natural, com até 20 horas diárias de luz no verão e impacto direto da diminuição da camada de ozônio. Nessa região, os pesquisadores identificaram 12 linhagens bacterianas capazes de produzir fotoliases. Entre essas, duas cepas — Sphingomonas sp. UV9 e Hymenobacter sp. UV11 — revelaram três enzimas inéditas que atuam diretamente na reparação de quebras e lesões no DNA.
A partir dessas descobertas, em 2023 Marizcurrena fundou a startup DNAzyme (hoje Antarka) junto às cientistas Célica Cagide e Betania Martínez, com o objetivo de explorar essas enzimas em aplicações dermatológicas. Esse projeto ganhou fôlego internacional após a empresa brasileira Natura investir 3,5 milhões de dólares, garantindo exclusividade no desenvolvimento de cosméticos com três fotoliases da Antártica.
Testes laboratoriais realizados pela Antarka demonstraram que as enzimas antárticas conseguem reparar danos no DNA de células humanas ocasionados pelo sol, sem causar efeitos adversos. Os resultados pioneiros convenceram a equipe a avançar para ensaios clínicos de segurança e eficácia, que também trouxeram resultados animadores.
“Depois de 56 dias de aplicação tópica, observamos melhora significativa na firmeza e na elasticidade da pele, aspectos diretamente ligados à produção de colágeno e elastina”, relata Juan José Marizcurrena, destacando o potencial dessas enzimas como ingredientes ativos em cremes e loções.
Os cientistas lembram que, há milhões de anos, os ancestrais dos mamíferos placentários também produziam fotoliases, mas perderam essa capacidade durante a evolução, possivelmente em razão de uma adaptação a hábitos noturnos. Hoje, o ser humano corrige danos no DNA por meio de um processo de excisão, considerado mais lento e sujeito a falhas que contribuem para o envelhecimento cutâneo.
Por funcionarem como verdadeiras “nanomáquinas” que detectam e reparam diretamente as alterações na molécula genética, as fotoliases antárticas representam uma nova fronteira em cosméticos e tratamentos dermatológicos. Embora já existam produtos baseados em fotoliases de microalgas, as enzimas recém-descobertas poderão oferecer reparos ainda mais eficientes e específicos.

