
Estudante realiza atividades escolares em casa sob supervisão dos pais. (Foto: Instagram)
A condenação de um casal em Jales, no interior de São Paulo, reacendeu o debate sobre o homeschooling no Brasil. Os pais foram julgados por terem retirado as filhas de 11 e 15 anos do sistema presencial sem regulamentação legal, apesar de apresentarem relatórios que atestavam atividades em idiomas, música e leitura. A decisão judicial reacende dúvidas sobre limites legais e o papel da escola na formação e socialização.
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O caso teve origem quando a instituição de ensino comunicou o Conselho Tutelar sobre o abandono das filhas pelo modelo domiciliar. Em ação judicial, a defesa reuniu milhares de páginas de avaliações e registros acadêmicos para demonstrar qualidade educacional, mas o juiz concluiu que houve abandono intelectual. Embora o casal tenha sido condenado, a pena foi suspensa condicionalmente, desde que cumpram exigências definidas pela sentença.
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Homeschooling, ou ensino domiciliar, ocorre quando os próprios responsáveis assumem a educação dos filhos fora das escolas tradicionais. Podem ministrar as aulas diretamente ou contratar professores particulares e usar plataformas digitais. No Brasil, associações em diversos estados defendem essa liberdade, argumentando maior autonomia dos pais e participação ativa no processo de aprendizagem.
Atualmente, a modalidade não tem autorização legal no país. O projeto de lei PL nº 1338/2022, em análise no Senado Federal, propõe alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para regulamentar o ensino em casa. Desde outubro de 2025, com parecer favorável da relatora Professora Dorinha Seabra, o texto aguarda inclusão na pauta da Comissão de Educação e Cultura.
Apesar da ausência de norma federal, o Distrito Federal e cidades como Cascavel (PR) e Vitória (ES) aprovaram normas sobre homeschooling. No entanto, decisões do Supremo Tribunal Federal têm anulado regras estaduais e municipais, entendendo que somente a União pode definir diretrizes gerais sobre educação. Defensores contestam, alegando que a Constituição permite legislar em nível local na ausência de lei nacional.
Sem regulamentação, famílias que adotam o ensino domiciliar podem ser processadas criminalmente por abandono intelectual, previsto no Código Penal. Na esfera cível e administrativa, muitas ações se baseiam no ECA para exigir matrícula na rede regular, frequentemente acompanhadas de multas. Conforme Édison Prado de Andrade, advogado e gestor da Associação Brasileira de Defesa e Promoção da Educação Familiar (ABDPEF), a pressão do Estado costuma levar as famílias a retornar à escola tradicional.
Um dos principais argumentos contra o homeschooling é a limitação da convivência social proporcionada pela escola. Embora os pais afirmem que as crianças participam de esportes, cursos, encontros religiosos e projetos culturais, especialistas ressaltam que essas atividades não substituem o contato diário e espontâneo com colegas. No caso de Jales, a defesa destacou atividades coletivas como coral e clubes de leitura, mas estudiosos apontam diferença entre convivência escolhida e vivência escolar.
Além de demandar dedicação de um dos responsáveis, o modelo exige investimento em plataformas digitais, materiais didáticos e professores particulares, restrito a parcela reduzida da população. Futuramente, com regulamentação, jovens educados em casa poderiam usar vestibulares e universidades sem depender do Encceja. Defensores afirmam que o homeschooling seria alternativa complementar, ampliando as opções educacionais, mas críticos alertam para o aumento de sobrecarga na rede pública caso escolas passem a acompanhar os alunos domiciliares.

